Tár é um filme que conta a história fictícia da maestrina Lydia Tár, interpretada pela renomada Cate Blanchett, que se torna a primeira diretora musical feminina da Filarmônica de Berlim. Embora a trama apresente uma personagem principal brilhante e bem-sucedida, Lydia é revelada como uma pessoa narcisista, abusiva e com comportamentos reprováveis que prejudicam aqueles ao seu redor.O diretor Todd Field merece elogios por sua habilidade em lidar com temas complexos, como abuso, elitismo cultural e ética/antiética, que são explorados de forma provocativa na trama. A cinematografia é cuidadosa, com uma paleta de cores rica, e a trilha sonora original, composta por Todd Field e Philip Glass, cria uma atmosfera musical única.
A partir daqui, se você não assistiu ao Filme, fica o alerta para Spoiler!
Confesso que desde que me propus a fazer críticas de cinema passei a apreciar mais filmes que não entregam toda mensagem mastigada, mas me desafiam. Esse processo de revisitar e ruminar obras cinematográficas tem sido prazeroso e didático. E aqui temos um filme complexo que pode ter sido uma má experiência para muitos que não conseguiram entender de primeira a proposta desse longa-metragem e a importância das reflexões que Tar nos apresenta.
A personagem Lydia Tár é bem construída e suscita amor e ódio nos expectadores, mostrando seu brilhantismo como artista, seu amor pela música e seu relacionamento com a filha, mas também sua natureza narcisista, predatória e suas atitudes condenáveis, como a mentira, intimidação, terror psicológico, infidelidade, as vezes quando ela alicia mulheres mais jovens e como ela descarta pessoas quando não precisa mais delas. Lydia é uma Narcisista abusiva que deixa rastro de ódio por onde passa, além disso, a personagem ainda apresenta quadros de paranoia e alucinação.
No filme, o comportamento inapropriado de Lydia com dois personagens em particular foram responsáveis pelo seu cancelamento. Um desses personagens foi Krista, interpretada por Sylvia Flote, que foi usada e descartada por Lydia e acabou cometendo suicídio após várias tentativas de contato ignoradas pela maestrina. O segundo personagem foi Max, interpretado por Zethphan Smith-Gneist, um aluno do Juilliard School. A cena que se passa na escola de arte é particularmente importante, pois levanta os principais temas que o filme trata. Lydia, como professora, fica furiosa após a justificativa de Max sobre a rejeição das obras de Bach, um dos maiores compositores da história da música ocidental. O aluno confessa ser Pansexual e relata o descontentamento em relação ao compositor ser branco e misógino, acrescentando que estava mais interessado em composições contemporâneas. Lydia tenta defender a música clássica, sustentando que tinha lugar de fala, pois era mulher lésbica e que deveríamos separar a vida pessoal do artista de suas obras. No entanto, sua oratória está carregada de hostilidade, zombaria, bullying verbal e desrespeito, enquanto os professores deveriam ouvir seus alunos e refutá-los de forma respeitosa que os façam refletir.
Embora as justificativas de Max possam ter parecido fúteis e canceladoras do ponto de vista acadêmico, o comportamento corporal do aluno, juntamente com a movimentação da câmera, mostra que aquele tema ou aquela exposição estava causando um grande desconforto e ansiedade no jovem. As batidas de perna de Max evoluem e aceleram com a progressão da exposição, e ele tem algumas risadas nervosas que são uma maneira de lidar com o nervosismo. Após a cena do piano, vemos Lydia em primeiro plano, enquanto Max está sentado na frente do piano com a cabeça baixa. Essa cena nos faz refletir se é possível separar a arte dos artistas e qual é o limite da arte.
O comportamento desonesto, abusivo ou reprovável dos artistas pode não causar indignação na maior parte da sociedade, mas para aqueles que se sentem diretamente afetados, é impossível evitar o cancelamento. Se a vida tóxica de um artista não me afeta, estou livre para apreciar sua arte? Existe um limite para a arte? Essas são questões importantes que devemos refletir. No filme, Max sai da aula furioso antes mesmo de Lydia terminar sua elucubração, demonstrando que a situação afetou profundamente o jovem.
Após o cancelamento de Lydia Tár, podemos ver seu descontrole mental escalando quando ela é solicitada pela vizinha para reduzir o volume de suas músicas. Logo após o diálogo, ela começa a tocar e cantar em voz alta, ironizando o episódio. O ápice do desequilíbrio acontece quando a personagem agride o maestro que a havia substituído em uma apresentação do concerto.
Cancelada por todos, a maestrina se isola nas Filipinas, onde tem a oportunidade de reger novamente, já que é desconhecida no Oriente. Pouco antes do evento, Lydia vai parar em uma casa de massagem que mais parecia um prostíbulo. Lá, ela é solicitada a escolher uma das mulheres expostas em uma espécie de vitrine. A única mulher que olha fixamente para ela é a número cinco, que representa a sinfonia que a personagem queria tanto reger. Assim que ela deixa aquele local, ela vomita quase que como uma espécie de confirmação de uma profecia. Lembra outro momento em que a personagem sentiu nojo quando ela ajudou sua vizinha, que parecia ter problemas mentais, a levantar uma idosa debilitada e colocar na cadeira? Aquela cena era uma profecia do que poderia ser o final decadente e solitário da artista.
O filme termina com a maestrina regendo em um evento do jogo Monster Hunter, onde o público vestia cosplay . A artista monstro Caçadora foi caçada, e Lydia é apenas uma apresentação secundária para um nicho específico. Talvez o que essa cena final queira deixar como mensagem é que aqueles que apreciam obras de artistas cancelados se trajam de fantasias.
O diretor Todd Field não se propõe a fazer um julgamento sobre a polêmica artista Lydia Tár. Ele apresenta os fatos e deixa a reflexão com o público. A intenção do cineasta é provocar. Os espectadores devem fazer suas escolhas: amam ou odeiam Lydia Tár? A cancelariam? Até quando? Quais são os critérios do cancelamento? Devemos separar a arte dos artistas?
Em minha opinião, Tár deveria ser motivo de debates na sociedade e provavelmente se tornará um filme mais reconhecido num futuro próximo. Não se trata de um filme para um nicho da sociedade, mas sim sobre arte e a cultura do cancelamento, temas tão presentes atualmente.
Nota 7


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