terça-feira, 21 de março de 2023

Tár

Tár é um filme que conta a história fictícia da maestrina Lydia Tár, interpretada pela renomada Cate Blanchett, que se torna a primeira diretora musical feminina da Filarmônica de Berlim. Embora a trama apresente uma personagem principal brilhante e bem-sucedida, Lydia é revelada como uma pessoa narcisista, abusiva e com comportamentos reprováveis que prejudicam aqueles ao seu redor.

O diretor Todd Field merece elogios por sua habilidade em lidar com temas complexos, como abuso, elitismo cultural e ética/antiética, que são explorados de forma provocativa na trama. A cinematografia é cuidadosa, com uma paleta de cores rica, e a trilha sonora original, composta por Todd Field e Philip Glass, cria uma atmosfera musical única.


A partir daqui, se você não assistiu ao Filme, fica o alerta para Spoiler!

Confesso que desde que me propus a fazer críticas de cinema passei a apreciar mais filmes que não entregam toda mensagem mastigada, mas me desafiam. Esse processo de revisitar e ruminar obras cinematográficas tem sido prazeroso e didático. E aqui temos um filme complexo que pode ter sido uma má experiência para muitos que não conseguiram entender de primeira a proposta desse longa-metragem e a importância das reflexões que Tar nos apresenta.

 A personagem Lydia Tár é bem construída e suscita amor e ódio nos expectadores, mostrando seu brilhantismo como artista, seu amor pela música e seu relacionamento com a filha, mas também sua natureza narcisista, predatória e suas atitudes condenáveis, como a mentira, intimidação, terror psicológico, infidelidade, as vezes quando ela alicia mulheres mais jovens e como ela descarta pessoas quando não precisa mais delas. Lydia é uma Narcisista abusiva que deixa rastro de ódio por onde passa, além disso, a personagem ainda apresenta quadros de paranoia e alucinação.
    
No filme, o comportamento inapropriado de Lydia com dois personagens em particular foram responsáveis pelo seu cancelamento. Um desses personagens foi Krista, interpretada por Sylvia Flote, que foi usada e descartada por Lydia e acabou cometendo suicídio após várias tentativas de contato ignoradas pela maestrina. O segundo personagem foi Max, interpretado por Zethphan Smith-Gneist, um aluno do Juilliard School. A cena que se passa na escola de arte é particularmente importante, pois levanta os principais temas que o filme trata. Lydia, como professora, fica furiosa após a justificativa de Max sobre a rejeição das obras de Bach, um dos maiores compositores da história da música ocidental. O aluno confessa ser Pansexual e relata o descontentamento em relação ao compositor ser branco e misógino, acrescentando que estava mais interessado em composições contemporâneas. Lydia tenta defender a música clássica, sustentando que tinha lugar de fala, pois era mulher lésbica e que deveríamos separar a vida pessoal do artista de suas obras. No entanto, sua oratória está carregada de hostilidade, zombaria, bullying verbal e desrespeito, enquanto os professores deveriam ouvir seus alunos e refutá-los de forma respeitosa que os façam refletir.



Embora as justificativas de Max possam ter parecido fúteis e canceladoras do ponto de vista acadêmico, o comportamento corporal do aluno, juntamente com a movimentação da câmera, mostra que aquele tema ou aquela exposição estava causando um grande desconforto e ansiedade no jovem. As batidas de perna de Max evoluem e aceleram com a progressão da exposição, e ele tem algumas risadas nervosas que são uma maneira de lidar com o nervosismo. Após a cena do piano, vemos Lydia em primeiro plano, enquanto Max está sentado na frente do piano com a cabeça baixa. Essa cena nos faz refletir se é possível separar a arte dos artistas e qual é o limite da arte.

O comportamento desonesto, abusivo ou reprovável dos artistas pode não causar indignação na maior parte da sociedade, mas para aqueles que se sentem diretamente afetados, é impossível evitar o cancelamento. Se a vida tóxica de um artista não me afeta, estou livre para apreciar sua arte? Existe um limite para a arte? Essas são questões importantes que devemos refletir. No filme, Max sai da aula furioso antes mesmo de Lydia terminar sua elucubração, demonstrando que a situação afetou profundamente o jovem.



Após o cancelamento de Lydia Tár, podemos ver seu descontrole mental escalando quando ela é solicitada pela vizinha para reduzir o volume de suas músicas. Logo após o diálogo, ela começa a tocar e cantar em voz alta, ironizando o episódio. O ápice do desequilíbrio acontece quando a personagem agride o maestro que a havia substituído em uma apresentação do concerto.

Cancelada por todos, a maestrina se isola nas Filipinas, onde tem a oportunidade de reger novamente, já que é desconhecida no Oriente. Pouco antes do evento, Lydia vai parar em uma casa de massagem que mais parecia um prostíbulo. Lá, ela é solicitada a escolher uma das mulheres expostas em uma espécie de vitrine. A única mulher que olha fixamente para ela é a número cinco, que representa a sinfonia que a personagem queria tanto reger. Assim que ela deixa aquele local, ela vomita quase que como uma espécie de confirmação de uma profecia. Lembra outro momento em que a personagem sentiu nojo quando ela ajudou sua vizinha, que parecia ter problemas mentais, a levantar uma idosa debilitada e colocar na cadeira? Aquela cena era uma profecia do que poderia ser o final decadente e solitário da artista.

O filme termina com a maestrina regendo em um evento do jogo Monster Hunter, onde o público vestia cosplay . A artista monstro Caçadora foi caçada, e Lydia é apenas uma apresentação secundária para um nicho específico. Talvez o que essa cena final queira deixar como mensagem é que aqueles que apreciam obras de artistas cancelados se trajam de fantasias.


O diretor Todd Field não se propõe a fazer um julgamento sobre a polêmica artista Lydia Tár. Ele apresenta os fatos e deixa a reflexão com o público. A intenção do cineasta é provocar. Os espectadores devem fazer suas escolhas: amam ou odeiam Lydia Tár? A cancelariam? Até quando? Quais são os critérios do cancelamento? Devemos separar a arte dos artistas?

Em minha opinião, Tár deveria ser motivo de debates na sociedade e provavelmente se tornará um filme mais reconhecido num futuro próximo. Não se trata de um filme para um nicho da sociedade, mas sim sobre arte e a cultura do cancelamento, temas tão presentes atualmente.

Nota 7

terça-feira, 7 de março de 2023

Aftersun

Aftersun é um filme que conta a história de Sophie, uma menina de onze anos que passa um verão com seu pai Calum em um resort em decadência na Turquia no final da década de 1990. Vinte anos depois, Sophie reflete sobre as lembranças desse feriado passado com o pai e tenta se reconciliar com esse homem que ela percebe não conhecer completamente. A trama aborda temas como pertencimento, perda, memória e depressão, o que pode levar a reflexões sobre a vida e as relações humanas. Em suma, o filme nos ensina sobre a importância de valorizar nossas relações pessoais e nossas memórias para construir uma vida mais significativa. O filme emociona pela relação entre pai e filha e na imaginação do que o futuro reserva para eles

Ao falar sobre o filme Aftersun, é importante citar os principais elementos que contribuíram para o seu sucesso. Isso inclui a direção sensível e melancólica de Charlotte Wells, as indicações ao Oscar 2023 na categoria de Melhor Ator para Paul Mescal e ao BAFTA 2023 nas categorias de Melhor Filme Britânico e Melhor Ator para Paul Mescal. Além disso, também é importante destacar a trilha sonora envolvente do filme e as atuações marcantes de Paul Mescal e Frankie Corio. A diretora usou técnicas como flashbacks para contar a história, o que contribuiu para criar um clima poético e lírico. Além disso, a fotografia do filme é marcada por tons pastel que refletem o tom melancólico da trama

Sophie é retratada como uma menina inteligente e curiosa e algumas vezes é vista como madura para sua idade. Ela está naquela período de tentar entender o mundo ao seu redor e descobrir quem ela é. Já Calum é retratado como um pai amoroso e idealista, mas também como alguém que luta contra seus próprios demônios internos.


A partir daqui, se você não assistiu ao Filme, fica o alerta para Spoiler!


Aftersun é um filme só para aqueles que possuem sensibilidade e empatia, tem muita coisa acontecendo no silencio, tem muito de linguagem silenciosa por parte do personagem Calum. A trama é uma revisitação das memórias de Shopie daquela viagem com o pai, do ponto de vista dela essas memórias representam saudade e melancolia. Já se olharmos do ponto de Vista de Calum é sobre depressão, caos interno a todo o momento.

Como o filme apresenta dois personagens tão complexos e diferentes, vamos tentar entender qual o olhar de cada personagem sobre os eventos transcorridos naquele verão. A trama se passa em quase todos os momentos dentro do resort ao qual os personagens estavam hospedados.

Vamos começar nossa análise com Sophie e logo de início, chama a atenção a curiosidade da personagem. Durante o filme, a menina está sempre fazendo perguntas e tentando entender melhor o mundo ao seu redor. Ela quer saber mais sobre a cultura turca, a história de sua família, as emoções de seu pai e a relação entre ele e sua mãe. Sophie também está interessada nas pessoas que ela conhece durante a viagem. Sua curiosidade é uma forma de se conectar com o mundo e com as pessoas ao seu redor, mostrando como ela está tentando criar memórias duradouras daquele verão especial. Além disso, a curiosidade de Sophie representa a ideia de que as memórias são construídas através da exploração e do aprendizado, e é importante estar aberto às experiências novas para criar lembranças significativas. Em suma, a curiosidade de Sophie é um tema importante em Aftersun e mostra como essa característica pode ser transformadora na construção das memórias.

Podemos ver em vários momentos a jovem observando as pessoas ao seu redor, como quando ela está bisbilhotando por uma fechadura e observa duas adolescentes conversando, quando presencia jovens se beijando e ao observar os outros, ela consegue aprender muitas coisas sobre eles, como sua linguagem corporal e seus hábitos. Além disso, Sophie usa a observação para entender melhor o comportamento humano e como as pessoas interagem entre si. Sophie usa a observação para entender melhor sua própria ansiedade social e como ela afeta suas relações interpessoais. Em suma, os momentos em que a personagem está observando as pessoas mostram como essa característica é importante para entender melhor o mundo ao seu redor.

 O espectador pode ser levado a entender que Sophie procura interagir com crianças mais velhas propositalmente porém, na verdade, ela tem dificuldade em fazer amigos durante a viagem e parece estar presa em uma faixa etária estranha, onde as crianças são muito jovens e os adolescentes são muito crescidos. Durante o filme, a personagem tenta se conectar com outras pessoas de várias idades, incluindo adultos e crianças mais velhas. 

 Por vezes, Sophie tenta construir boas memórias com seu pai durante a viagem. As cenas na loja de tapetes em Aftersun são uma metáfora poética para a ideia de que as memórias são como tecidos que podem ser desgastados e desbotados com o tempo. Durante a cena, Sophie e Calum estão escolhendo um tapete para levar para casa, mas o vendedor alerta que o tapete pode perder sua cor e textura se for exposto ao sol por muito tempo. Essa cena representa a fragilidade das memórias e como elas podem ser afetadas pelo tempo e pelas circunstâncias. Além disso, a cena também mostra como a personagem está tentando criar uma lembrança duradoura daquele momento com seu pai, escolhendo cuidadosamente um objeto que possa representar aquele verão especial. 

Sophie e Calum tiram uma foto juntos, mas a imagem fica borrada. Calum tenta esconder a foto com o braço, mas Sophie insiste em vê-la. Essa cena retrata a fragilidade das memórias e como elas podem ser afetadas pelo tempo e pelas circunstâncias. Além disso, mostra como Sophie está tentando criar uma lembrança duradoura daquele momento com seu pai, mesmo que essa lembrança seja imperfeita. A foto borrada em Aftersun é uma metáfora poética que reforça a ideia sobre a importância das memórias.

Os problemas psicológicos de Calum limitaram as experiências vividas por Sophie durante a viagem. Embora ela não entendesse completamente a complexidade do drama que seu pai enfrentava, ficava evidente que algo estava errado. Em algumas cenas em que a menina apenas queria se divertir e criar boas memórias, acabou sendo frustrada pela saúde mental comprometida de Calum. Uma cena que retrata isso de forma tensa, triste e constrangedora é quando Sophie convida seu pai para subir ao palco e cantar com ela. Calum recusa e, quando Sophie retorna do palco triste, ele faz comentários inadequados. Essa cena foi muito bem dirigida e interpretada pelos atores, mostrando o constrangimento de Sophie no palco. Não era porque ela não sabia cantar, mas porque deveria ter sido uma experiência compartilhada e divertida. Voltaremos a essa cena mais adiante, pois é preciso entender o que se passava dentro da cabeça de Calum naquele momento para compreender o contexto completamente.



O personagem Calum é retratado como alguém que cresceu em uma família tóxica e lida com problemas financeiros. Durante o filme, ele tenta esconder suas lutas internas e evita falar sobre a falta de dinheiro com sua filha Sophie. Apesar de dar desculpas para não participar de algumas atividades, o verdadeiro motivo era o orçamento limitado. A viagem para a Turquia era uma oportunidade para criar memórias duradouras juntos, mas a falta de dinheiro afetava sua capacidade de proporcionar experiências mais significativas. A limitação monetária também afetava sua autoestima e sua capacidade de se conectar com Sophie. Em resumo, a situação financeira de Calum é um assunto que tem sua importância em Aftersun e afeta tanto Sophie quanto ele próprio.


Calum parece ser dominado pela depressão, que se manifesta em sua postura corporal, voz e falta de interação com outras pessoas durante a viagem. Uma de suas poucas interações foi com um funcionário de embarcação, em que ele revela não saber como chegou aos trinta anos. O fato de não conversar com sua filha sobre sua saúde financeira demonstra que essa é uma das maiores preocupações que o afetam. As crianças entendem quando os pais têm orçamento limitado. A monotonia da viagem não se devia apenas à falta de dinheiro, mas também à depressão.

A questão da depressão é fundamental para compreender a situação mental de Calum. Se houvesse estágios para a depressão, ele estaria no último. É provável que ele não quisesse fazer a viagem naquele estado mental, e talvez não quisesse estar em lugar nenhum. A depressão é um mundo em que você é o único morador, e ainda assim sente como se ele estivesse lotado. Em duas cenas, podemos ver o desespero em que ele se encontra. Uma delas é quando ele chora descontroladamente, mostrando como a tristeza o consome. Outra cena é quando ele foge para a praia, volta pelado e dorme na cama da filha, esquecendo-a do lado de fora do quarto. Esse episódio trouxe muita vergonha para ele, que foi retratada na cena em que fazem uma atividade com lama terapêutica, em que ele pede desculpas várias vezes. Pessoas nesse estágio de saúde mental muitas vezes tentam se agarrar em algo como uma espécie de norte como última tentativa, e Sophie era o último norte dele. Na viagem, ele provavelmente se convenceu de que o mundo seria melhor sem ele, não porque fosse mau, mas porque seu estado mental afetava as pessoas ao seu redor.

Finalmente, voltando à cena em que Sophie é deixada para cantar sozinha no palco do resort, vemos a tristeza em seus olhos, sentindo-se abandonada pelo pai. Essa cena é significativa porque mostra como a depressão de Calum afetou não apenas ele, mas também sua filha.




Quando Sophie volta depois de uma terrível apresentação, seu pai Calum diz a ela que a colocaria em uma aula de canto e deixa de lado o fato de que sua filha esperava que ele estivesse ao seu lado. Se você não souber o que passou pela cabeça dele, a primeira impressão é de que foi um comentário grosseiro, tanto que a menina diz que não se importa com a performance dela. Então ela manda um tiro certeiro em Calum, dizendo que ele não teria dinheiro para bancar aulas de canto e revelando que sabe sobre a condição financeira do pai. Ela estava transtornada, a atividade deveria ser divertida, os dois serem desastrosos no palco e guardar aquela memória como boa, mas ele não queria ser visto, não queria ser notado. O comentário infeliz foi por conta da tentativa de esconder o real motivo, a depressão.

Outro momento que foi devastador para Calum foi a comemoração do seu aniversário. Se tivesse acabado na felicitação de Sophie, o dia teria terminado menos pior. Mas a menina, sem entender o que se passava na mente do pai, combinou com todos os passageiros de um dos passeios do resort em cantar parabéns surpresa. Ficou evidente o constrangimento dele. Provavelmente porque alguém com depressão já se isolou tanto das atividades sociais que ver um monte de gente estranha dando parabéns para ele porque sua filha organizou é como se ela estivesse sentindo pena dele. Do ponto de vista de todos é uma atitude fofa, mas na mente doente de alguém com depressão, a percepção dos fatos é mais sensível.

Em alguns momentos, o personagem finge uma animação que não é verdadeira. Isso é típico de alguém com depressão e isso provavelmente corroeu o personagem , pois ele sabia que não estava conseguindo fazer as atividades que queria praticar e que Sophie esperava que um pai fizesse. Já perto do final da viagem, ele finge uma animação falsa e tenta motivar Sophie, em outro momento, força uma animação que não existia, e chama Sophie para dançar, ele sabia que ela recusaria. Não que ele não fosse uma pessoa legal, ele era tudo o que transmitia, mas a depressão não permitia. A pessoa adia atividades todos os dias e sempre tem uma desculpa. A depressão destrói no campo das teorias e na química do cérebro. Lutar contra a depressão é parecido com a luta entre Rocky vs Drago em Rocky 4. Você apanha round após round e quando você revida parece que está batendo em uma parede. Dói mais revidar. E se você sobrevive, você sai cheio de sequelas.

O filme termina com Calum se despedindo no aeroporto, gravando Sophie enquanto ela faz umas palhaçadas, momentos após revelar que tinha adorado a viagem. Por mais das dificuldades da viagem, a imagem dos pais na mente dos filhos é de heróis. Não é o dinheiro, pois os menos afortunados também são felizes, e para as crianças, qualquer atividade é feliz.
O filme Aftersun nos lembra que as experiências compartilhadas com quem amamos são muito valiosas e preciosas. Mesmo quando as coisas não saem como planejado ou não são perfeitas, elas ainda podem ser lembradas como momentos especiais. É importante valorizar esses momentos e não deixar que a depressão ou outras dificuldades nos impeçam de criar memórias felizes com nossos entes queridos.

Além disso, o filme também nos mostra como a depressão pode afetar profundamente a vida de uma pessoa e de sua família. É importante entender que a depressão é uma doença real e séria, que precisa ser tratada com cuidado e atenção. A compreensão e o apoio de pessoas próximas podem ser fundamentais para ajudar alguém que está passando por uma crise de depressão.

Em resumo, Aftersun é um filme emocionante e profundo, que nos leva a refletir sobre a importância das relações humanas e sobre a necessidade de cuidarmos uns dos outros. É um filme que nos toca e que nos faz pensar sobre as questões que são importantes em nossas vidas.

Minha nota para esse filme é 8


Aftersun chegou aos catálogos de Video On Demand. Ou seja, o filme já está disponível para aluguel nas mais variadas plataformas, como Apple TV (iTunes), Google Play, YouTube Filmes, Vivo Play e Claro TV+

domingo, 5 de março de 2023

Os Fabelmans

 

O filme "Os Fabelmans" é semi-autobiográfico e conta a história do Sammy Fabelman, um jovem apaixonado por filmes que cresce no Arizona pós-Segunda Guerra Mundial. O menino sonha em se tornar um cineasta e faz seus próprios filmes com sua câmera, inspirado pelos clássicos de Hollywood. No entanto, ele descobre um segredo devastador de sua família e precisa lidar com a dor e a decepção. A obra é uma mistura de nostalgia e melancolia, mostrando a magia e o poder do cinema na vida de Sammy Fabelman. 

Embora "Os Fabelmans" tenha recebido críticas mistas, com alguns apontando o roteiro como pouco notável e longo demais, considero o roteiro do filme bem construído, sensível e emocionante, destacando a importância dos filmes em nossas vidas. Spielberg consegue transmitir a magia do cinema de forma única, mostrando como a sétima arte pode nos ajudar a ver a verdade sobre os outros e sobre nós mesmos. O cineasta dividiu a produção do roteiro com o roteirista Tony Kushner.

O elenco também é um grande destaque do filme, com atuações impressionantes que conseguem transmitir toda a emoção e complexidade dos personagens. Destaque para os atores Gabriel LaBelle como Sammy Fabelman, Michelle Williams de "O rei do Show" interpretando a mãe do Sammy, Paul Dano como pai do Sammy e Judd Hirsch como o tio Boris, além das presenças ilustres de Seth Rogen como Bennie e Greg Grunberg como Bernie Fein.

A trilha sonora também ajudou a engrandecer a obra, sendo produzida por Milan Records e composta pelo ganhador do Oscar, John Williams (“Star Wars”, “Jurassic Park”).

A cenografia e os figurinos não poderiam ficar sem ser mencionados. Ambientado ao longo dos anos 50 e 60, o filme faz um excelente trabalho de reconstrução de época, perceptível tanto nos mínimos detalhes de seus cenários quanto na caracterização dos personagens. Na cenografia, há um grande cuidado com a escolha dos móveis e a estética das casas, conforme as tendências da época. Os modelos de câmera utilizados por Sammy também revelam mais sobre a ambientação temporal do longa, sempre atento às novidades da época. Nos figurinos, o mesmo, com destaque para a evolução dos penteados ao longo dos anos. Além disso, as locações reais no Arizona ajudaram a dar vida à história.


A primeira parte de Os Fabelmans o filme aborda a infância de Sammy, seu encanto com o cinema, sua relação com suas irmãs e o ambiente familiar. A medida que ele vai crescendo, ele mostra toda sua habilidade para dirigir filmes de pequena duração e criar efeitos especiais fora do comum para alguém tão novo e com tão poucos recursos. Todos a sua volta, ficam encantados com suas produções de curtas-metragens. Além de suas pequenas produções, o jovem Sammy registra tudo com sua câmera, até que um tempo depois, mais velho editando gravações do passado, ele descobre que sua mãe estava tendo um caso de infidelidade com o Bennie (Seth Rogen) amigo do seu pai e quase um membro da família.

Para Sammy, guardar o segredo sobre a traição de sua mãe foi extremamente difícil e desafiador. Ele era uma criança quando descobriu a verdade e, como qualquer criança, ele se sentiu confuso e abalado com a revelação. Além disso, o protagonista sentia uma grande pressão em manter esse segredo. Na verdade, ele não percebeu a traição de sua mãe quando gravou os vídeos porque, como criança, ele não tinha consciência do que estava acontecendo. Ele gravou os vídeos por pura diversão e curiosidade, sem entender completamente o que estava se passando na vida de seus pais. 

Ao longo da trama, é possível observar como o drama familiar afeta o personagem, que se torna mais reservado e isolado, guardando seus sentimentos e emoções dentro de si mesmo, ao ponto de se afastar até mesmo da sua melhor companheira, a câmera. Entretanto, essa situação possibilitou que Sammy fosse compreendendo melhor sua história e se reconectando com seus pais de forma mais profunda e sincera.

Depois da promoção no emprego do pai de Sammy, toda família se muda para Califórnia. Lá o jovem tem que lidar com bullying praticado por alunos do colégio, além de sofrer ofensas antissemitas. Se não bastassem essas perseguições, ele presenciou um esgotamento psicológico por parte de sua mãe por conta da saudade que ela sentia do Bennie e por todo sentimento de culpa pelas traições e segredos que escondia. Logo depois o cenário evolui para a dissolução familiar quando todas as verdades vieram a tona.

No evento programado pelo colégio para a exibição das gravações feitas na praia, Sammy decide confrontar os colegas agressores. A cena da exibição do filme é emocionante e impactante, e mostra a coragem do protagonista em enfrentar seus traumas e utilizar sua arte como forma de cura e transformação. É um momento poderoso que ilustra a importância do cinema não apenas como meio de entretenimento, mas como forma de expressão e resistência


O primeiro contato do jovem Fabelman com as lentes da câmera foi a descoberta de um propósito, o encanto do mundo do cinema, no entanto, também através da câmera ele enxerga a traição de sua mãe e mais tarde, a mesma câmera que o encantou também revelou verdades duras que o entristeceram, mas agora ela será usada como uma arma poderosa para ferir, não o corpo, mas o ego dos seus agressores através da arte.  Chad Yhomas interpretado pelo Oakes Fegley assistiu sua imagem exposta ao vexame, Já o Logan Hall interpretado por Sam Rechener é exposto através do destaque. O primeiro se sentiu humilhado, o segundo constrangido. Sam Rechener interpreta muito bem o momento de confusão mental, as misturas de sentimentos que as cenas da praia o proporcionaram. Logan foi o herói da praia e teve todo o destaque do evento, mostrando todas as suas qualidades físicas, porém aquele que registrara todas as imagens era o mesmo garoto que ele perseguia física e psicologicamente. Não é apenas como as pessoas te enxergam através das lentes, mas como você se vê através dela. Às vezes é preciso uma câmera para a gente enxergar a verdade, sermos expectadores de nós mesmos, e aí não importa se você é vilão ou herói, se você não é um personagem de cinema, ela só te mostra a verdade nua e crua. É a arte socando a sua cara e seu ego simultaneamente, e digo arte porque só aquele que viria a se tornar um dos maiores cineastas de todos os tempos poderia dirigir uma cena tão genial, criativa e didática como essa. 

O filme termina com o pai apoiando o jovem Spielberg que após ser entrevistado por outra lenda dos cinemas, o cineasta ganhador de quatro Oscar como diretor, John Ford, interpretado por David Lynch, ingressa na universidade do estado da Califórnia para estudar cinema.

São nos detalhes que Os Fabelmans me ganham. Seja nos momentos de felicidades com suas irmãs retratados na infância, os conselhos do seu tio Boris que mais parecia uma espécie de Grilo Falante, naqueles em que a arte estava sendo apreciada no seu ambiente familiar, seja através da música, da dança ou do cinema. De como a mãe do Sammy não gostava de lavar louças, de como ele usava o humor mesmo que de forma sútil para enfrentar descriminações e situações embaraçosas e por último a entrevista peculiar, porém didática com a figura excêntrica de John Ford.

Em resumo, "Os Fabelmans" é um filme emocionante e sensível que destaca a importância do cinema em nossas vidas. Sammy sonhava em se tornar um cineasta e, apesar dos obstáculos que enfrentava, nunca desistiu de sua paixão. O filme nos ensina lições valiosas sobre seguir nossos sonhos, enfrentar a verdade de frente e valorizar a família e os amigos, que nos apoiam e nos ajudam a superar momentos difíceis.

Há também algumas curiosidades interessantes sobre o filme.  Uma delas é que o filme foi filmado principalmente em locações reais no Arizona, incluindo a casa onde Spielberg cresceu e a escola que ele frequentou.
E a outra, mas não menos interessante sobre o filme "Os Fabelmans" é que o diretor Steven Spielberg decidiu usar uma câmera Super 8 para filmar as cenas que foram supostamente feitas pelo personagem Sammy. A câmera Super 8 é um modelo de câmera que foi muito popular nas décadas de 60 e 70, e que muitos cineastas amadores usavam para fazer seus próprios filmes. A escolha de Spielberg em usar essa câmera na filmagem de "Os Fabelmans" trouxe uma autenticidade incrível para o filme, já que as imagens parecem ter sido feitas por um cineasta amador mesmo. Além disso, essa decisão do diretor ajudou a reforçar a importância do cinema na vida dos personagens e na própria vida de Spielberg, que começou sua carreira fazendo filmes caseiros com sua câmera Super 8.

Nota 7

quinta-feira, 2 de março de 2023

Pinoquio

O filme "Pinóquio" de Guillermo del Toro é uma obra de arte em todos os sentidos da palavra e podemos dizer que é uma adaptação sombria e mais adulta da história clássica de Pinóquio. O enredo segue a jornada de Pinóquio, uma marionete que ganha vida, enquanto ele navega pelo mundo e aprende importantes lições sobre honestidade, bondade e a importância da verdade. No entanto, Pinóquio também encontra perigos e tentações ao longo do caminho, como o mestre de circo cruel Stromboli e o dono do teatro da ilha dos prazeres, que o atraem com promessas de riquezas. O filme aborda temas mais sombrios, como corrupção, ganância e perda de inocência, enquanto explora a natureza da humanidade e a luta entre o bem e o mal.

A trama começa com uma cena escura e sombria de uma marionete em um teatro, sendo manipulada pelo mestre de marionetes, Geppetto. Em seguida, somos apresentados ao personagem principal, Pinóquio, que é uma marionete feita por Geppetto. Pinóquio é uma marionete peculiar, pois ele é capaz de se mover e falar como um menino de verdade. Geppetto fica encantado com a marionete e a trata como o seu próprio filho.

Pinóquio começa a explorar o mundo ao seu redor e se envolve em várias aventuras. Ele encontra outros personagens interessantes, como a Fada Azul, o Grilo Falante, o Gato e a Raposa. No entanto, Pinóquio também encontra perigos no caminho, como o cruel Stromboli, um mestre de circo que quer usar Pinóquio como atração principal em seu show. Além disso, Pinóquio é atraído pela promessa de riquezas pelo malandro dono do teatro da ilha dos prazeres.

Pinóquio começa a aprender lições valiosas sobre o mundo e sobre si mesmo. Ele descobre a importância da honestidade, bondade e da busca pela verdade. Geppetto, por sua vez, é capturado pelo maligno Côveo e é levado para uma ilha misteriosa. Enão Pinóquio decide ir numa jornada para encontrar o seu pai adotivo e trazê-lo de volta para casa.

Ao chegar à ilha onde Geppetto está preso, acaba descobrindo um segredo sombrio sobre si mesmo e a sua própria origem. Ele percebe que a sua verdadeira natureza é ser uma marionete, e não um menino de verdade. No entanto, Pinóquio decide continuar a sua busca para salvar Geppetto, mesmo que isso signifique sacrificar a sua própria vida.

No final, Pinóquio salva Geppetto e se torna um herói para aqueles que o conhecem. Ele aprende que ser verdadeiro consigo mesmo e lutar pelo que é certo são mais importantes do que qualquer outra coisa. O filme termina com Pinóquio e Geppetto voltando para casa, com o protagonista sabendo que agora tem uma família amorosa e um lugar seguro no mundo. 

Uma das principais lições do filme é a importância da honestidade. Pinóquio aprende que é melhor dizer a verdade, mesmo que isso signifique enfrentar consequências difíceis.



O filme mostra que a amizade é valiosa e podermos encontrar amigos em lugares inesperados. Pinóquio faz amizade com a Fada Azul e outros personagens ao longo da sua jornada. Outro aprendizado enfatiza a importância de se manter fiel aos seus princípios, mesmo quando há tentações para desviar do caminho certo. A trama destaca como a corrupção pode ser perigosa e levar a consequências graves. Personagens como Stromboli e o dono do teatro da ilha dos prazeres mostram as consequências da ganância e da corrupção. A perda da inocência e a luta entre o bem e o mal também são temas presentes na obra. Pinóquio descobre que o mundo pode ser um lugar perigoso e injusto, mas também aprende a importância de se manter esperançoso e continuar lutando pelo que é certo. E por último A obra de Guillermo del Toro nos mostra que a redenção é possível, mesmo para aqueles que cometeram erros. Pinóquio encontra um caminho de volta para casa e é capaz de se redimir, mostrando que há sempre uma chance de mudar e fazer a coisa certa.

9 Curiosidades sobre o Filme

1. Guillermo del Toro tentou fazer o filme por mais de uma década, mas só conseguiu a aprovação final após o sucesso do seu filme "A Forma da Água".

2.  O filme usa técnicas de animação stop-motion, que envolvem a criação de modelos em miniatura e a captura de cada movimento de forma individual. O processo é demorado, mas permite um alto nível de detalhe e precisão nos movimentos dos personagens.

3. A trilha sonora original do filme é composta pelo vencedor do Oscar, Alexandre Desplat.

4. A escolha do elenco de dublagem inclui alguns grandes nomes do cinema, como Ewan McGregor, Tilda Swinton, Christoph Waltz, Ron Perlman e David Bradley.

5. O filme tem um tom mais sombrio e adulto do que a história original de Pinóquio, com elementos de horror e fantasia sombria.

6. O design dos personagens é inspirado na arte da Renascença italiana e no estilo da marionete tradicional.

7. Pinóquio também aborda temas atuais, como a corrupção e a opressão, além de explorar questões filosóficas sobre a natureza da humanidade e da alma.

8. A obra levou cerca de dois anos para ser concluído, com mais de 150 profissionais envolvidos na produção. Foram criados mais de 100 sets diferentes para a animação stop-motion.

9. O filme teve a sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Veneza em 2021, recebendo críticas positivas e sendo elogiado pela originalidade e ousadia na abordagem da história clássica de Pinóquio.

Nota 7

O Lado Bom da Vida

  O Lado Bom da Vida (2012), dirigido por David O. Russell, é uma comédia dramática que segue a jornada de Pat Solitano (Bradley Cooper), um...